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Por que ler este livro?

Resolve, na prática, o falso dilema entre espiritualidade e realidade.

Letícia apresenta uma espiritualidade sem dogmas, sem Deus punidor, sem barganha. Sua fé é existencial e prática: é a coragem de viver sem garantias. Seu mantra é uma tecnologia psicológica de rendição ativa. Ela mostra que é possível ser profundamente espiritual sem fugir da realidade — pelo contrário, "mergulhando nela ainda mais fundo". "O Divino não tem um plano pré-determinado para a minha vida, nem exige nada de mim. O livre-arbítrio é a base da minha relação com o Divino."

É um raro exemplo de "teoria vivida", não apenas explicada.

A autora não é apenas uma paciente: é uma psicanalista de longa data. O livro é, simultaneamente, um relato de sofrimento e um "auto-estudo clínico" de rara honestidade. Ela não aplica conceitos de Freud, Lacan, Kristeva, Balint e Ferenczi de forma abstrata. Ela mostra como o "Princípio do Prazer" e o "Princípio da Realidade" brigam dentro dela durante a quimioterapia. Ela vive o "abjeto" de Kristeva quando o corpo falha e a diarreia a envergonha. Ela experimenta o Unheimliche (o estranho familiar) ao não se reconhecer no espelho. Para quem estuda psicanálise, é um material clínico de primeira linha. Para o leigo, é uma demonstração de que a teoria psicológica pode ser uma ferramenta de sobrevivência, não apenas um discurso acadêmico.​​​

Ele destrói a narrativa tóxica do "guerreiro do câncer".

É um antídoto contra a positividade tóxica e a romantização da doença. Letícia recusa a metáfora da guerra ("não quero travar nenhuma guerra contra a doença. O câncer não é um inimigo externo: é parte de mim"). Ela critica abertamente a pressão social para ser forte, inspiradora e bem-humorada o tempo todo. Ela nos dá permissão para sentir raiva, medo, cansaço e nojo — e ainda assim continuar. Este é um dos textos mais corajosos que você vai ler sobre o direito de não ser herói."Não quero ser uma guerreira. Quero tão somente fazer o que estiver ao meu alcance para me recuperar, sem ter que representar bravura e obstinação."

 
É um testemunho vivo sobre o que realmente sustenta um ser humano.

O livro alterna entre a profundidade filosófica e a concretude da vida cotidiana. Ela fala do medo da morte, da angústia existencial e do confronto com a finitude. Mas também fala da equipe de enfermagem que a cobre com um cobertor, do fisioterapeuta que diz "só mais um", da companheira Angela que limpa sua diarreia sem julgamento, da neta que escreve um lembrete gigante para ela não esquecer a insulina.

A grande lição do livro é que a transcendência não está no grande gesto heroico, mas na somatória dos pequenos atos de cuidado — os "pequenos subornos" (comprar uma blusinha barata na internet), o ritual da acupuntura, o mantra "Eu confio, eu entrego, eu aceito, eu agradeço".​​​​

© 2026 por Letícia Lanz. Todos os direitos reservados

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